"Real é o motor que levamos dentro.
Quase se sente, quase se cheira, quase que existe. No limbo expedito entre a memória e o real não há pantanal que não se cruze nem palavras bonitas que caiam em desuso ou que rocem o banal.
Nos breves instantes em que sentimos mãos flutuantes passarem por nós e deixarem com elas o rasto da idade, esquecemos as carícias de infância e as carências de que padecemos neuroticamente.
Submersos em desertos sobrepovoados e esvoaçando em campos plantados de neón tentamos esquecer o que fomos ensinados em tenros anos, procuramos águas límpidas em travessias infinitas.
Somos nós os capitães dos barcos destroçados, desbravando terrenos e colhendo perversões, somos o verbo transitivo que se faz na caminhada, animais brutos e caprichosos.
O belicismo trepidante da carne humana, preso em constante mudança de tempo e sítio, é adormecido nos pequenos começos e arremessos, e o medo do apodrecimento é esquecido com danças e cantigas sobre os tempos antigos em que nos vendemos.
E nesses labirintos poluídos com o peso da consciência, perdidos entre recantos poeirentos do que foi e o que podia ter sido, não há encantos que resistam aos resquícios do eco das promessas por cumprir.
Mas o cansaço da alma incessante e a farsa da terra prometida ao invés de espelhar desgraça, é fértil nascente desenraizada, sonho acordado, brilhante e taciturno, pura alucinação.
E nas raras noites de aflição em que nos parece em vão o perpétuo desencanto que levamos connosco, guardamos caras e corpos e saliva, e o cheiro de mil gentes indigentes como nós, fugindo do inevitável esquecimento.
E ainda que nos corroa os ossos a dor do retorno impossível, que nos corra no sangue o sal de Gomorra e nos envenene as artérias com as ânsias eternas da saudade e subversão.
A miragem somos nós. "

Catarina Amorim Santos